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Resistência de pragas aos inseticidas: como o manejo integrado pode reverter o cenário?

O Brasil é o maior consumidor de defensivos agrícolas do mundo e, paradoxalmente, enfrenta um dos maiores desafios ligados a esse uso intensivo: a resistência de pragas aos inseticidas.

O Brasil é o maior consumidor de defensivos agrícolas do mundo e, paradoxalmente, enfrenta um dos maiores desafios ligados a esse uso intensivo: a resistência de pragas aos inseticidas.

O fenômeno não é novo, mas ganhou contornos preocupantes nas últimas duas décadas, especialmente em culturas como soja e milho, que dominam o calendário agrícola nacional.

Entender por que a resistência se instala, como ela evolui e quais estratégias são capazes de desacelerar esse processo é, hoje, uma das questões mais urgentes para produtores, técnicos e formuladores de políticas agrícolas no país.

Por isso, neste conteúdo você vai entender o mecanismo por trás do problema e o que já está ao alcance do campo para revertê-lo. Continue acompanhando.

O que está por trás da resistência?

Quando um inseticida é aplicado repetidamente sobre uma população de pragas, os indivíduos naturalmente mais tolerantes ao produto sobrevivem e se reproduzem. Com o tempo, essa característica de tolerância se torna dominante na população.

É seleção natural operando em escala agrícola.

O processo é acelerado por práticas comuns em muitas fazendas brasileiras, como doses abaixo do recomendado, aplicações feitas no momento errado do ciclo da praga e, principalmente, o uso continuado de produtos com o mesmo mecanismo de ação safra após safra.

A velocidade com que a resistência se instala depende também da biologia da espécie.

Pragas com ciclo de vida curto e alta capacidade reprodutiva, como o pulgão e o ácaro-rajado, podem desenvolver resistência em poucas gerações. Já insetos com ciclos mais longos tendem a demorar mais, mas isso não elimina o risco.

As pragas que mais preocupam hoje

No Brasil, alguns complexos de pragas concentram as principais ocorrências de resistência documentada. O monitoramento realizado por universidades, Embrapa e empresas do setor aponta um cenário que merece atenção por cultura.

Soja: percevejo, lagarta e mosca-branca

A soja concentra parte significativa dos relatos de resistência no país. Veja os casos mais críticos:

  • Percevejo-marrom (Euschistus heros): populações com redução de sensibilidade a organofosforados já foram identificadas em diversas regiões do Cerrado e do Sul do país.
  • Lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda): embora mais associada ao milho, também afeta a soja e tem histórico consolidado de resistência a piretroides e espinosinas.
  • Mosca-branca (Bemisia tabaci): seu controle tornou-se progressivamente mais difícil nas últimas safras, em parte pela seleção de biótipos resistentes e em parte pela dificuldade de cobertura nas aplicações.

Para entender melhor o comportamento dessas e de outras espécies que ameaçam as lavouras brasileiras, o portal Mais Agro reúne um panorama completo sobre pragas agrícolas por cultura e tipo de organismo.

Milho: lagartas e os limites do Bt

No milho, o desafio tem uma dimensão adicional: a tecnologia Bt. As cultivares transgênicas com proteínas inseticidas derivadas da bactéria Bacillus thuringiensis representaram um avanço significativo no controle de lagartas.

No entanto, o uso intensivo sem zonas de refúgio adequadas acelerou a seleção de populações resistentes de Spodoptera frugiperda em diversas regiões, fenômeno já confirmado por pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo.

Isso não significa que a tecnologia Bt perdeu valor. Ou seja, ela precisa ser integrada a outras ferramentas de manejo para continuar eficaz.

Manejo Integrado de Pragas (MIP)

O Manejo Integrado de Pragas (MIP) existe como conceito desde os anos 1960, mas sua adoção plena ainda é limitada no Brasil. A pressão por produtividade, o custo de monitoramento e a falta de assistência técnica qualificada são barreiras reais e reconhecidas pelo setor.

Na prática, o MIP combina ferramentas biológicas, culturais, físicas e químicas para manter as populações de pragas abaixo do nível de dano econômico, sem depender exclusivamente de inseticidas.

O ponto de partida é sempre o monitoramento sistemático: sem saber o que está no campo, em que densidade e em qual estágio, qualquer decisão de controle é especulação.

Rotação de inseticidas: a lógica por trás da alternância

A rotação de mecanismos de ação é uma das ferramentas mais diretas para retardar a resistência. O princípio é simples: ao alternar produtos com modos de ação distintos entre aplicações ou entre safras, reduz-se a pressão seletiva sobre qualquer grupo específico de resistência.

O IRAC (Insecticide Resistance Action Committee) classifica os inseticidas em grupos numerados justamente para facilitar essa rotação.

Um ponto de atenção importante: rotacionar nomes comerciais não é o mesmo que rotacionar mecanismos de ação. Dois produtos com formulações diferentes podem pertencer ao mesmo grupo e exercer a mesma pressão seletiva.

Grupo IRAC

Mecanismo de ação

Exemplos de ingrediente ativo

Grupo 1

Inibidores de acetilcolinesterase

Clorpirifós, acefato

Grupo 3

Moduladores de canais de sódio

Cipermetrina, deltametrina

Grupo 4

Agonistas de receptores nicotínicos

Imidacloprido, tiametoxam

Grupo 28

Ativadores de receptores de rianodina

Clorantraniliprole, flubendiamida

A alternância entre grupos distintos ao longo das safras é uma das práticas mais recomendadas por especialistas e entidades como a Embrapa e o próprio IRAC Brasil para retardar a evolução da resistência.

Zonas de refúgio e controle biológico

Para culturas com tecnologia Bt, as zonas de refúgio são obrigatórias no Brasil desde 2008. Elas funcionam como reservatório de indivíduos suscetíveis que, ao se cruzar com eventuais resistentes, diluem a frequência do gene de resistência na população.

O controle biológico, por sua vez, ganha cada vez mais espaço como complemento ao manejo químico. Alguns exemplos de soluções já disponíveis no mercado brasileiro:

  • Trichogramma spp.: parasitoide de ovos de lagartas, amplamente utilizado em soja e milho.
  • Bacillus thuringiensis formulado: bioinseticida que não exerce pressão seletiva do tipo químico.
  • Baculovírus: vírus entomopatogênico com alta especificidade para lagartas da soja.

Essas ferramentas não substituem o inseticida em situações de alta infestação, mas integradas ao MIP, reduzem a frequência e a dose das aplicações químicas ao longo do ciclo.

Monitoramento: o elo que ainda falta na maioria das propriedades

Dados do setor estimam que menos de 30% das propriedades rurais brasileiras realizam monitoramento sistemático de pragas. A maioria das decisões de aplicação ainda é tomada com base em calendário fixo ou observação visual sem critérios de limiar definidos.

Isso representa um problema duplo: além de acelerar a resistência pelo uso desnecessário de inseticidas, eleva o custo de produção sem garantia de eficácia. Uma aplicação feita fora do momento certo pode não controlar a praga, eliminar inimigos naturais e ainda selecionar os indivíduos mais tolerantes na população.

A adoção de ferramentas digitais, como aplicativos de monitoramento, armadilhas com sensores e imagens de satélite para detecção de infestações, tem o potencial de mudar esse cenário.

A discussão sobre inovação no controle de pragas em soja e milho, onde a pressão é mais intensa, passa necessariamente por entender por que o controle dessas culturas demanda inovação sem precedentes, dada a complexidade do sistema agrícola brasileiro e a diversidade de espécies envolvidas.

Resistência não é inevitável, mas exige gestão ativa

A resistência de pragas aos inseticidas é um fenômeno biológico previsível, mas não irreversível em sua trajetória. A diferença entre um cenário de colapso no controle e um de manejo sustentável está, em grande parte, nas decisões tomadas hoje nas fazendas brasileiras.

Isso exige uma mudança de mentalidade: sair da lógica do “aplicar por precaução” para uma abordagem baseada em dados, diversidade de ferramentas e visão de longo prazo.

O MIP não é uma alternativa para quem não quer usar inseticida. É a estratégia que garante que os inseticidas continuem funcionando quando forem necessários.

Sobre o Mais Agro

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